Por Que os Acidentes Industriais Crescem no Brasil

Publicado em 13 Julho de 2026
Os acidentes industriais no Brasil estão em trajetória de alta, e os dados oficiais mais recentes confirmam o que gestores de SSMA já sentem no dia a dia: o risco operacional cresce mais rápido do que a capacidade de resposta das empresas. Esse movimento não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, o debate sobre o enfraquecimento do órgão federal que investiga acidentes químicos, o Chemical Safety Board, expôs a mesma tensão entre menos fiscalização e mais ocorrências. Mas é no cenário brasileiro, com foco no Espírito Santo, que este artigo se aprofunda.
O que os números da ANP revelam sobre segurança de processo
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) registrou 731 acidentes nas atividades de exploração e produção em alto mar em 2024, o maior número desde o início da série histórica do órgão, em 2011. O total supera os 718 acidentes de 2023 e os 598 de 2022, uma trajetória de crescimento contínuo em apenas dois anos.
Mais revelador ainda é o comportamento dos quase acidentes, eventos sem dano que sinalizam falhas de barreira antes que se tornem uma perda maior. Esse indicador saltou de 970 ocorrências em 2022 para 1.375 em 2024. Quando o número de quase acidentes cresce mais rápido que o de acidentes confirmados, isso costuma indicar deterioração da margem de segurança operacional, não apenas aumento de atividade.
O retrato local: atendimentos com produtos perigosos no Espírito Santo
Um levantamento do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMES), cobrindo o período de 2010 a 2025, mostra o mesmo movimento em escala estadual. O total de atendimentos envolvendo produtos perigosos saltou de 264 em 2021 para 506 em 2022, mantendo-se acima de 490 ocorrências por ano até 2025. Parte desse salto reflete uma mudança de metodologia: a partir de agosto de 2021, o CBMES passou a codificar separadamente os chamados de orientação técnica remota, que antes não eram contabilizados. Ainda assim, os atendimentos presenciais, com guarnição efetivamente no local, atingiram o maior volume da série histórica em 2023, com 256 ocorrências.
A distribuição geográfica confirma o que o setor já sabe informalmente: a Região Metropolitana da Grande Vitória concentra a maior parte do risco. Vila Velha (944), Vitória (935), Serra (666) e Cariacica (546) somam mais de 60% dos 4.753 produtos perigosos registrados em atendimentos na série histórica. Gás liquefeito de petróleo, óleo diesel e óleo lubrificante são os produtos mais recorrentes, um perfil consistente com a concentração industrial, portuária e logística do estado.
Por que a fiscalização não acompanha o ritmo do risco
A ANP atribui parte do recorde de 2024 ao aumento da atividade offshore, com novas unidades de produção entrando em operação e mais sondas perfurando poços. É um argumento coerente, mas incompleto: mais atividade sem controles proporcionais de segurança de processo é exatamente o cenário que a literatura de PSM (Process Safety Management) descreve como precursor de acidentes ampliados.
Esse é o ponto de contato com o que ocorre nos Estados Unidos. Lá, a proposta da administração Trump de zerar o orçamento do Chemical Safety Board gerou reação de associações técnicas e do próprio Congresso, que restabeleceu o financiamento em janeiro de 2026. O episódio reforça um princípio válido para qualquer geografia: quando a capacidade pública de investigar e prevenir acidentes fica sob pressão, a responsabilidade por demonstrar controle de risco não desaparece, ela migra para dentro da própria empresa, do seu conselho e da sua seguradora.
O que isso significa para empresas no Espírito Santo
Para operações industriais, portuárias, químicas e de óleo e gás no ES, os dados do CBMES e da ANP mostram uma exposição real e concentrada geograficamente onde a maioria das empresas capixabas efetivamente opera. Isso reforça o valor de mecanismos de verificação independentes, como diagnósticos de maturidade em PSM, gestão de barreiras críticas (Bow-Tie e Critical Controls Management) e indicadores de segurança de processo nos moldes da API RP 754.
Esses instrumentos não substituem a fiscalização, mas dão à empresa e aos seus stakeholders externos, matriz, seguradora, conselho, uma resposta objetiva à pergunta que se torna mais frequente à medida que os atendimentos de emergência aumentam: como sua empresa sabe, com evidência técnica, que seus controles críticos ainda funcionam? Esse é também o raciocínio por trás das boas práticas de segurança operacional contínua que já discutimos aqui no blog.
Conclusão
Os dados da ANP, do AEAT e do próprio CBMES deixam claro que os acidentes industriais no Brasil, e no Espírito Santo em particular, crescem de forma consistente, não pontual. Esperar que a fiscalização absorva sozinha esse aumento é uma aposta arriscada para qualquer operação que dependa de aprovação de matriz, seguro industrial ou relatório de governança. A Avoid apoia empresas na avaliação técnica independente de segurança de processo e na elaboração de planos de emergência (PAE, PE, PEI) alinhados aos requisitos que seguradoras, matrizes e órgãos reguladores já cobram. Fale com a nossa equipe para entender o nível de maturidade da sua operação.